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As lendas nunca morrem

Vista panorâmica do cemitério Père-Lachaise
Pormenor do cemitério Père-Lachaise
Túmulo de Oscar Wilde no cemitério Père-Lachaise
Cemitério Père-Lachaise
Túmulo de James Morrison

Dizem que algumas lendas da música, do cinema, da literatura ou das artes nunca desaparecem de todo, e o cemitério de Pére-Lachaise é a prova disso.
Nos arredores de Paris encontra-se um lugar que recebe mais de dois milhões de visitantes por ano. O facto surpreendente é tratar-se de um cemitério. Deste se diz que é o mais visitado do mundo e quem ali se dirige, por curiosidade ou para homenagear algum dos seus ídolos, assegura que o passeio entre as fileiras de árvores é inesquecível. Foi inaugurado oficialmente em 21 de maio de 1804, e recebeu o nome de François d´Aix de La Chaise, conhecido como padre Lachaise, confessor do rei Luís XIV de França, que viveu ali nos arredores.
Os parisienses da época receberam o cemitério com muitas críticas, porque não queriam ser enterrados longe do centro de Paris, entre os vinhedos. No entanto, a relocalização de restos mortais de personagens célebres, como La Fontaine e Molière, fez olhar para o cemitério com outros olhos e começou, assim, a ter a fama que hoje ostenta. Contudo, o padre Lachaise não está ali enterrado. Os seus restos mortais descansam numa igreja no bairro de Le Marais.
Aqui descansam os restos mortais de artistas, como as cantoras Edith Piaf e Maria Callas, os escritores Marcel Camus, Colette, Honoré de Balzac e Oscar Wilde, que fugiu para França por causa das acusações de conduta obscena; os pintores Théodore Géricault e Eugène Delacroix, os músicos Frédéric Chopin, Gioachino Rossini e Jim Morrison; os intérpretes Yves Montand e Sarah Bernhardt, e a bailarina Isadora Duncan, entre muitos outros. O cemitério não só acolhe os mais ilustres da cultura, como também tem um lugar especial para os falecidos numa das épocas históricas mais tristes da história da França: a ocupação nazi, durante a II Guerra Mundial. Ali estão enterrados os judeus falecidos nos campos de concentração, a quem se dedica um monumento; e os que morreram lutando na Resistência francesa. Os 147 fuzilados durante o levantamento popular da Comuna de Paris também encontraram uma vala comum no Père-Lachaise para o sono eterno.
Também trágica, embora de forma mais romântica, é a história de dois dos ocupantes mais famosos deste cemitério parisiense, Abelardo e Heloísa, protagonistas de um impossível romance medieval. O professor e a sua aluna, casados em segredo e separados pelo tio dela, que a fechou num convento e castrou o seu amante, voltaram a juntar-se, em 1817, quando se sepultaram juntos os seus dois corpos. Desde então, milhares de pessoas deixam as suas cartas no túmulo de ambos, como símbolo do poder eterno do amor.
O cemitério continua a crescer. Quer por méritos próprios, granjeados nas artes, ou comprando uma parcela por uns 12 000 €, o mesmo preço por metro quadrado de um apartamento na zona. O tempo de espera para reservar um lugar é, contudo, digno de um faraó egípcio. Em todo o caso, este privilégio só está reservado aos parisienses ou aos que falecem na Cidade Luz.

Túmulos curiosos

Os personagem que ali descansam não recebem a mesma veneração ou trato por parte dos visitantes. O túmulo do famoso escritor Oscar Wilde, por exemplo, permanece sempre coberto de batom, fruto dos milhares de beijos que recebe por parte das suas admiradoras. Há inclusive uma lápide em que tiveram de colocar uma rede de segurança. Os fãs de Jim Morrison, o cantor do grupo musical "The Doors", deixavam no seu túmulo muitas garrafas e cigarros em forma de tributo ao músico. Apenas por curiosidade: outro dos músicos mais famosos do Père-Lachaise, o pianista Chopin, descansa aqui, mas o seu coração foi enterrado em Varsóvia, na sua cidade natal.

Arquiteturas excêntricas

Cerca de um milhão de pessoas descansam nos milhares de túmulos, ao longo dos seus 43 hectares, mas nem todos são iguais. A complexidade e originalidade arquitetónica, que evidenciam muitos dos monumentos funerários erigidos neste cemitério, aumentam o seu potencial turístico. A figura do escritor belga Georges Rodenbach, rompendo a pedra para sair do túmulo, ou a estátua jacente do jornalista Victor Noir, tal e qual como caiu baleado, são do mais isólito que se pode imaginar.

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